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10 de novembro de 2011

Trieteza-II

O poema é triste, dizem

como se fosse obrigação minha
alegrar almas lamber feridas estancar mágoas
fazer piruetas e palhaçadas
inverter a vida a crise o vácuo
falar só de sexo vinho flores aromas

mil vezes não!

ninguém me tira a liberdade das palavras
são como eu, doces frágeis impetuosas
extravagantes selvagens carinhosas
sentidas e verdadeiras
daçam comigo comigo choram
nascidas de mim em mim morrem

nada devo a quem me lê, nem o silêncio!
do meu amor soltam-se lágrimas
há em mim o rio dum barco inacabado

31 de outubro de 2011

O Cálice

Seu coração estilhaçado a razão do cérebro comanda
ainda que seja um buraco desarmado é vigilante
e defende até à morte a trincheira conquistada

no azul lunar do céu, longínqua dança das ondas
quase adormecerá… e ninguém o engana tanto!
logo os neurónios realinham:
amordaça o desejo do abstracto tece nova cortina
enxuga o corpo frio suado e corta a língua seca… 
haverá dia novo, a máscara tem-na colada ao rosto
jogos de palavras e teatro são o seu ofício


desgraçada daquela que lhe vê o rosto, leia os olhos
conheça brechas na trincheira - instante e partida
jamais servirá dois cálices à lareira 
se a campainha toca atenta a chuva na janela
duas, três vezes... é ilusão do vinho forte!
do cansaço do vento, quiça da idade...  


a desprezada no marmóreo corpo agoniza sem sangue
do vinho que ele no cálice solitário derrama gritando
a urgência do amor na vida, temendo-o mais que a morte…


inédito, 2011
( rascunho)

25 de outubro de 2011

Vem

Quero-te a ti, não o nome nada do que construíste


quero-te nu, como o seio de mãe te acolheu

vestirás a pele do meu corpo


traz mágoas cicatrizes mesmo o cansaço

... tudo se dilui na harmonia

vem remendando o barco subindo as dunas

qual cavalinho de pau cruzando o deserto

teu destino é a praia que se abre nas minhas pernas


na demora de cada dia que passa

o mar avança e leva de mim um grão de areia

e em ti o vazio cresce na cama onde te deitas

(inédito, 2011, maria lascas)

13 de outubro de 2011

Impostos

Despe-me a roupa que me deu forma, confere bem etiquetas


desce-me dos saltos que me alteiam

... arranca-me os brincos a que dão brilho meus olhos

tira-me a mesa, tolha subtileza da chávena vinho queijo pão

leva a cama, o brocado da colcha o cetim e a seda dos lençóis

todos os adobes e as tijoleiras do chão

(não, nem abóbadas nem arcos! meu pai os fez com a mão!

nem a cabana de jasmim que o amor me teceu)

o resto leva tudo! ficar-me-á sempre o infinito...

o Sol o céu azul a Lua-Cheia os pássaros meus irmãos

o meu sentir a minha paixão

poderás arrancar-me da terra, nunca a terra de mim

leva lápides de mármore e as ossadas de meus avós

sempre foram servos teus

esse é o poder do direito e a fraqueza do Império

… e nem há naus a lançar ao mar

nem filhos a dar à Índia ou ás granadas dos turras

e já nem há como partir, p’ra onde partir

nem jornaleiros para fabris, França ou Brasil

(que tão longe se fez Lisboa)



ficarei, despojada de tudo o que partir me deu

presa de novo ao horizonte

o pobre braço nem a colher da terra aprendeu!

- e é tanta a terra sem nada a fazer

como outros buscarei comida p´ra boca

na arte daqueles que fogem da morte

Lótus Cleópatra Madalena – um nome assim terei

hortelã da ribeira e orégãos do monte

tão saborosos mesmo em mesa de rei

nunca matam a fome à ganância das bestas….



12 de setembro de 2011

Esperaria

Esperaria por ti noite e dia, os anos todos se viesses...
de verdade és só coisa minha, inventada
meu desejo a minha fome
a pele da minha pele, da minha boca o beijo

não és quem à minha imagem se oferta
nem quem de mim se esconde ou persegue
nem quem virá... se alguém vier ainda
- outra procuram e batem à minha porta

eu que antes enganada me julgava
abria-me em feridas com quem purga
abro agora à noite no meu quarto a janela
e um anjo de luz pentei-me os cabelos

( os pássaros sabem se sonho ou dormo acordada )

mas entre o céu e o meu corpo não há mais nada
que esta mágoa de ser só, que sou eu também
e o infinito desejo por mim criado
minha pele corpo não quer que não seja eu

( rascunho, inédito, 2011)

5 de setembro de 2011

Mulher Proibida

Ele conhece da mulher proibida a alma de cristal

a boca o desenho dos lábios
nos cabelos as ondas os sonhos os dramas
a tocha da fogueira que seu corpo conduz
e recusa-a ignora-a
não como o marinheiro que nega a sereia
e em seu sonho pueril acalenta e deseja
da sua forma dirá ser pedra fria de mármore
e talvez lhe invente carácter venenoso e ignóbil
de forma a controlar seus impulsos enquanto dorme
e não é o mandamento da cobiça que o impede!
deixa que seu olhar noutras o desejo incendeie
nem é incesto ou crime ou honra…
apenas seu mundo rodando no eixo que em si fez

… qual velho naufrago em porto seguro
olha agora o mar pela vidraça: só tempestade vê
soletra poemas de amor por mera saudade
não constrói barco novo, fica do passado refém
- nunca foi seguro o porto se não se avista mais além
e cego é o olhar daquele que seu cristal não vê
tonto ou fraco quem nega seu próprio ser
proibida chama à que não pertence a ninguém

(inédito, rascunho, ou seja susceptível de ser alterado por mim)
2011

23 de agosto de 2011

O Leque

O Leque

Não tenho mais palavras para ti
queimei em meu fogo minhas amarras
e logo hasteas-te a vela, partiste

... que te levem os elos todos do vento!

o que te empurra notícias de ti trará:
seja naufrágio ou regaço a que aportes
não haverá em mim palavras
a que eu antes fora não viverá
e sua última lágrima sempre foi do mar

assim fecha o leque sem o adeus da partida
dele guardarás a eterna brisa
eu o olhar do louco que o coloriu 

mas há tantos barcos! tantos!...

a chegar a partir à ilha a que me prendo
ainda vendo colo alento extâse fantasia!
só palavras minhas iguais já não tenho...
( inédito, 2011,
rascunho ou seja a minha primeira escrita que pode vir a sofrer pequenas alterações... aqui ou em ulterior publicação)

11 de agosto de 2011

O Retrato



Queria ser como ela! livre
cabelos de ondas vermelhas ao vento
a bênção do sorriso
e os olhos tristes de sedução

no corpo esquecido em regaço de rosas
as pernas cruzadas e o peito
erguendo-se no bambolear das ancas firmes
a dança do frufru das pulseiras

livre!
… e no retrato ainda serei eu?!
(inédito, 2011)

11 de julho de 2011

Carta da ausência

Carta da ausência

Em tarde de Sol nasci da terra, já tu abrias os olhos de espanto.
Envolta no círculo de azul e branco ouvia o silêncio do nada enquanto te ensinavam a vida, o trabalho e a família, a sobrevivência a partilha e a conquista.
Crescemos do leite e os dias, e víamos e ouvíamos coisas que aos outros não interessavam mas que despertavam a nossa sede de ser.
E fomos. Perdemos e ganhámos. Percorremos, sem recuar mas ás vezes solitários e tímidos, planícies ondas montanhas até nossos trilhos se cruzarem.
Então reconhecemos nas palavras os nossos sonhos e no olhar nossos sentidos.
Houve encontro e partida, o fogo das entranhas da terra e as lágrimas dos oceanos, a matéria e alma, o rosto e o verso de que é feita cada coisa.
E como antes havíamos feito depois haveríamos de fazer, prosseguindo sarando chagas, arrastando a cruz, velando e erguendo-nos para tocar a estrela que nos conduz.
Havia memórias, marcas da alegria e da mágoa, mas nossas bocas no olhar se encontravam sempre que de nossos caminhos se avistavam…
Ainda tememos as próprias palavras, preferindo as de poetas que do impossível falam… Mas a beleza da alma é pouco, mesmo em harmonia, quando vazias as mãos se abraçam de noite ao próprio corpo… E nada nos é proibido, o medo e a culpa são artifícios e fantasias negando a essência de Deus.
Sei que meu sorriso renasceu e, em teu lábio de menino, faz tremer o teu.

Amor? nunca o disseste e nunca o direi.
Amor é pouco! dúbio e vulgar…
Para ti guardo a palavra nova em meu silêncio.


(inédito, sem data)

13 de junho de 2011

Na Noite

Na Noite


A cada respirar o azul da noite clareia
pássaros acordados anunciam o dia novo
apetece-me parar tão súbito renascer
mas morre na noite a ilusão de a fazer

partes como parti
o que desejámos deixámos feito
meu corpo saciado nada reclama
meu cérebro não conjectura

só tuas mãos quentes nas minhas
demoro a largá-las para que as levesem troca de nome ou endereço
meu corpo saciado não reclama
meu cérebro nada conjectura
mas as tuas mãos quentes nas minhas
demoro-me a largá-las para que as 

31 de maio de 2011

A minha Avò


A minha Avó

A avó da minha avó, nem sei que nome tinha, o enxoval bordava de menina (lençóis camisa e toalhinha). 
Já moça na seara o olhar de soslaio bastara, no baile a dança à janela o beijinho na face e com ajudas galinhas vinho o casamento se fazia…
Mulher de respeito, cavava plantava mondava regava ceifava, a casa de branco caiava e de tão limpa no telhado nenhum ninho durava. Amassava, a lenha apanhava o forno acendia e o pão para a semana cozia. No tempo devido tratava do pimentão, das tripas dos enchidos, do coalho e do cardo, das azeitonas e no Carnaval dos fritos... Carregava água com o cântaro à cabeça e outro à ilharga, muitas vezes prenha, fazia a barrela e lavava, torcia cosia  remendava e com o ferro de brasas toda a roupa passava. Na enxerga seu homem satisfazia e quando paria amamentava adormecia benzia curava ensinava corrigia castigava perdoava absolvia…
Os mortos velava com choro e com reza, cuidava das campas, dos velhos, da cria… E côdea dura p’ro mendigo sempre haveria.

Não deixou anel de ouro nem pulseira nem fio.
O alguidar as panelas a salgadeira a talha dois pratos de louça fina o vestido e o xaile deixou tudo às filhas, que dela  aprenderam e como elas suas filhas fizeram.
Serei adoptada, inacabada ou tonta... tanto vi fazer e nada aprendi. Perdida, sem destino a cumprir, procuro-me no espelho, retoco o batom, revejo o verniz… Atrás de mim todas elas e atrás delas outras tantas, de pé e serenas, sem boca nem olhar, só as mãos rugosas para servir ainda prontas.

18 de março de 2011

Vinho

Serve-me vinho, vinho sempre!

corre-me nas veias água, insípida clara…
dá-me vinho! 
não a uva a enrolar-se na língua
abram-se tonéis se acabarem as garrafas, tinto rosé Porto
deixa meu corpo mergulhar no fundo, curtir no tempo
e seja a taça que transborda
sorvendo a última gota do néctar maturado na pipa
parido cor de sangue

e bebe o vinho do amor em mim, suavemente…

18 de fevereiro de 2011

Rosas de Alexandria

Chegam rosas rosas pequeninas, rosinhas
colhidas bravias


vêm de longe… miragem de Alexandria
e moribundas desfolham no regaço, peregrinas


(inédito, maria lascas )

17 de novembro de 2010

Do acaso

Vinha do acaso
elevando-se nos saltos dos sapatos
arqueando a cintura balouçando o peito
disfarçando a verruga da barriguinha


caminhava ao encontro do Castelo Acontecido:
foral muralhas, perdidas quatro igrejas e freguesias
as cortes reunidas…
- pedi ao meu destino e voltei no tempo

na Praça cheia de vida
prendeu os lábios aos meus, pressenti a sua mão
esmagava os mamilos no meu peito
agarrei-lhe a cintura para não me perder

almocreve de passagem logo me fiz ferreiro
das aldrabas da nossa porta
e assim viveríamos para sempre os dois
( viajar no tempo ninguém mais sabia )

tenho saudades desse sorriso só p´ra mim
saudades dum dia a ter tido, da partida...
p'ra saudades verdadeiras saber sentir

15 de novembro de 2010


só serei, como as veredas da neblina
ninguém me contará histórias, nenhum embalo
ninguém semeará ilusão e o desengano
ninguém me esculpirá o ser

só beberei o vinho do meu corpo
não existe a fogueira acesa, a manta alentejana a música
- seria cigana ou perdido do mar a atearia...?!
assim decreto a minha solidão!

esta será em mim a taça mais profana:
a ninguém amo
e Deus, juro, não está dentro de mim

17 de maio de 2010

VII Encontro Internacional de Poetas e Novas Poéticas da Resistência

Aqui divulgamos estes dois acontecimentos relacionados com a Poesia a ter lugar neste mês de Maio em Coimbra:

- VII Encontro Internacional de Poetas-COIMBRA
www.ces.uc.pt/novaspoeticas

http://www.ces.uc.pt/eventos/evento206
http://www1.ci.uc.pt/poetas

- Colóquio Internacional

"Novas Poéticas de Resistência"

25 de Maio 2010

CES, Coimbra

7 de abril de 2010

No mar


Sentada no areal a tela contemplava


no céu parado meus olhos descansavam

no mar o coração pulsava



de tanto a admirar vinha-me o cansaço

sonhava com a chegada do navio

à proa o marinheiro-menino p’ra comigo brincar

21 de março de 2010

Primavera Poesia

Rosa bravia
de madrepérola esculpida tão delicada
quem me dera ter mão para colhê-la
( impossível tê-la!)
para proteger suas pétalas das noites negras
do inverno frio
que só seu perfume guarda Marraquech

( maria lascas )