22 de maio de 2008

Os Cadernos Secretos do Prior do Crato


Tento não me irritar com a proliferação de livros banais, com a sua mediática divulgação e com o consequente disparar de vendas. Tento repetir para mim própria que vivemos numa sociedade pseudodemocrática cujas regras de funcionamento na edição de livros são as da liberdade e livre concorrência como em qualquer outro sector do mercado. Portanto, fabrica-se aquilo que mais se vende, vende-se aquilo que for de consumo imediato, melhor publicitado e que a moda da altura mandar.
Agora os interesses são os casos do futebol, a sua corrupção e a vida íntima dos seus protagonistas. A corrupção no futebol é tratada por muitos como algo normal, generalizado… Mas atendendo aos livros vendidos jornais revistas entrevistas e programas de televisão que já se dedicaram a este assunto parece que este é o verdadeiro problema nacional! Qual fome! Não existe, segundo o nosso Primeiro Ministro! Qual corrupção nas esferas financeiras e políticas! Nada…
Ser jornalista não é nada fácil quando o desemprego impera! Como investigar contra os amigos de quem nos garante o sustento?...
Há algo de surrealista nesta história da corrupção no futebol! E não é segredo que gosto de ver um bom jogo e até torço pelo FCP! Mas se há corrupção há que combatê-la, onde quer que exista, mas com as proporções da mesma… E digo mais: toda esta dimensão da publicidade tem reforçado e não diminuído o prestígio popular dos acusados…
Mas a vida privada dum cantor, duma prostituta, duma figura do jet set não vende menos.
As pessoas precisam de prencher os seus vazios pessoais, matar a sua fome de vida, com estas histórias de êxito e sensações… Livros a sério dão que pensar e pensar pode doer ainda mais e tornar a vida diária ainda mais penosa. As pessoas em geral precisam de momentos de evasão das suas próprias vidas, o que conseguem nomeadamente através destas histórias, da telenovela, das revistas de moda e de viagens dos jogos de futebol e das intermináveis discussões futebolistícas…
Sinceramente tentei calar-me, passar ao lado, esquecer quanto me é impossível publicar um livro de poesia, não me irritar… Mas ontem, quando vi que no Canal 1, a seguir ao jogo do Chelsea-Manchester, a entrevista da Judite de Sousa ao "Sargento" imediatamente após a publicação do seu Amo-te Filha “passei-me”!
Este caso jurídico igual a tantos outros dramas que correm nos Tribunais de Menores tem tido uma divulgação tão despropositada quanto a da corrupção futebolística. Agora um livro e mais esta publicidade acrescida… ( Acrescento que em minha opinião toda esta situação tem sido muito mal conduzida até pelo próprio Tribunal… )
Sinceramente penso que andamos a ser desviados do país real e propositadamente.

Acabei de ler ontem “ Os Cadernos Secretos do Prior do Crato” o mais recente livro de Urbano Tavares Rodrigues. Ia a escrever o último ( no sentido do mais recente) livro de Urbano e depois corrigi porque o último também podia ser lido como se não viesse a escrever mais nenhum…
Adorei este livro, com uma riqueza extraordinária de vocabulário e de tão acessível leitura. Apetece sorver uma página atrás da outra, tal o envolvimento que o escritor nos cria.
Tratando-se duma figura histórica, poderia pensar-se numa leitura pesada e enfastidiosa, pelo contrário parece-me que convivi com o Prior do Crato, na sua grandeza humana, no seu patriotismo, nos seus sonhos, lascivas, arrependimentos… Pessoalmente o que me impressionou neste livro foi identificar nele a vivência actual de Urbano, na contemplação do passado e na aproximação da morte. E dói sentir a angústia de quem se gosta.

De nada vale a publicidade que aqui faço no Blog a este Livro.
Talvez não se venda um único livro.
Urbano ou o Prior do Crato são desconhecidos para a RTP 1 e para as outras televisões jornais e revistas. A sua escrita não interessa… “ e se um homem se põe a pensar”

3 comentários:

Graça Pires disse...

Eu acho que vai vender-se, pois o Urbano é um escritor apreciado por quem gosta da boa literatura. Gostei de o encontrar aqui. Obrigada. Um beijo.

Alexandre Júlio disse...

Olá querida Amiga!

Que pena eu tenho de não ter contado contigo neste nosso passeio delicioso, mas entendo as tuas razões!

Dá um vôo pelo menos virtual pelo nosso Passeio Campestre, e matarás saudades pelo menos virtualmente.

Eu ouvi tantas vezes os teus passinhos pelas minhas abelhinhas e eu sem poder visitar o teu maravilhoso cantinho, os amigos/as cibernautas, tantas vezes quanto queria!
Mas a minha vida sempre a correr, tantas são as solicitações a que tenho que tentar corresponder, nem sempre atempadamente!
Obrigado pelas tuas palavrinhas sempre deliciosas, nas abelhinhas!

Um beijinho ternurento da nossa planície florida, e das minhas abelhinhas com quem passei hoje o dia com o meu filhote, o Paulito que tanto me ajudou, .....

LB disse...

Vale sempre a pena falar de livros, porque há muitas portas para entrar numa boa história!