3 de junho de 2009

Morre-se em Alpedrinha

Do blog do Poeta Antropólogo e Amigo Luís Filipe Maçarico, www.aguasdosul.blogspot.com:
"
Alpedrinha é uma vila que me cativa. Pela sua localização monumental, com a Gardunha, as suas águas, os seus castanheiros e cerejais. Pela sua população tradiconalmente hospitaleira.
Nos últimos tempos, as notícias que chegaram da terra mágica foram amargas.
Três moços que vi crescer, o mais velho deles com 28 anos, puseram termo à vida.
A interioridade e a falta de perspectivas para a Juventude, o vazio que se vai apoderando de todos nós, vão causando danos profundos, desmentindo estatísticas e discursatas.
A realidade violenta destes suicídios, entristecendo o quotidiano pacato de familiares e amigos, não sucedeu no Alentejo deprimido, mas numa Beira Baixa, de onde são naturais Guterres e Sócrates, confrange a ausência de medidas revigoradoras da economia e da solidariedade social. Há um pesado silêncio sobre os problemas.
Toda a nossa província abandonada, de Norte a Sul, com rapazes e raparigas sem emprego, que têm de fugir para tentar melhor sorte, é uma lástima. A alternativa à litoralização (e à liberalização que presenteia bancos falidos com milhões de euros) é ver passar o tempo, consumindo cerveja e televisão. Esta lenta agonia que alguns não aguentam mais".

Sinto os sinos de Alpedrinha nos meus ouvidos, o eco dos gritos de dor na Gardunha, não me apetece a água na fonte do Leão, nem me banharei mais no tanque dos Poetas... A Sintra da Beira não é Sintra se as suas gentes estão a morrer assim.
Encaro hoje a morte como coisa tão natural como a vida, mas o suícidio atinge-me como uma espada delicerante de culpa... Desde os quatro anos que vejo o suícidio tocar-me de perto, familiares, colegas, conhecidos.... A desertificação deixou de ser coutada do alentejo, alastrou-se com as opções políticas dos últimos anos.
Não me revejo na vingança, mas alguém tem que ser responsabilizado pela morte destes jovens... pelo menos politicamente.
E, ao contrário da ideia feita de que não podemos fazer nada, penso que podemos fazer bastante... Podemos começar por votar no domingo, em vez de ficarmos em casa comodamente como se a responsabilidade das escolhas políticas não fosse nossa...
E votando devemos ajuizar bem em que mundo queremos que vivam os nossos filhos, pois como mãe esventrada me vejo nestas mortes de Alpedrinha...
Que cada um ajuize no fundo de si qual o voto certo e o futuro do nosso país pode mudar. Os votos somam-se um a um...
O meu coração bate e os meus olhos choram por Alpedrinha, lugar de afectos.
Mas mesmo que Alpedrinha não vos diga nada, o suicídio de três jovens tem que dizer!
VEMOS OUVIMOS LEMOS
NÃO PODEMOS IGNORAR
é de Sophia esta frase conhecida, mas Sophia não desperdiçava palavras, usava as palavras certas, eram a sua arma...
Cada um de nós tem armas ocultas, não menosprezemos o nosso poder de intervenção no nosso bairro na nossa cidade no nosso país no planeta...
Que o mundo virtual, que tanto nos pode dar, não nos torne em apáticos répteis submissos!

6 comentários:

oasis dossonhos disse...

Bem Hajas por ampliares a dor colectiva, que tem de ser partilhada,é preciso avisar toda a gente!
Xi coração
Luís

Bichodeconta disse...

Olá, obrigada por ter ao acordar esta visitaque espero continuar a merecer. Também meus olhos choram!Não conhecendo Alpedrinha particularmente, conheço o lugar onde fica situada e mais importante do que conhecer o lugar é conhecer o motivo ou motivos que levam os nossos jovens 8porque de jovens estamos a falar)ao suicídio.
Terras desestificadas por força de circunstancias que nos são alheias, a falta de emprego /trabalho, a desmotivação que começa a estar em cada um de nós..Tenho pena de não poder dar a ler a todas as pessoas este manifesto de revolta e este apelo gritante ao voto .Pessoas há que com trinta e muitos anos nunca votaram, são pessoas que para além de não conhecerem os seus deveres cívicos, não conhecem a história e o numero de mortos e torturados que lutaram para que este direito acontecesse. Se tantos anos de luta foram precisos para que possamos votar, como desperdiçar este direito que nos foi dado por quem tanto lutou..Haja no entanto consciencia politica e saibamos nós discernir os actos e palavras de cada um.. Obrigada ainda Maria pela força que carrega em si e nos trasmite.Pela garra de a quem um "canudo"Abriu horizontes mas a quem ao invés de esquecer as raízes e a terra que a viu nascer, se orgulha e o demonstra sempre.. Sobre a depressão um dia se tiver coragem, falarei, mas pela porta do quintal como quem vai pedir um ramo de salsa..Um beijinho e um bom final de semana..

Vieira Calado disse...

É muito interessante Alpedrinha.

Passava por lá, todos os nos.

Mas a nova estrada, fez com que não mais lá voltasse.

Pena...

Ezul disse...

Ainda não tinha comentado porque esta é uma realidade demasiado dolorosa. Que País é este que mata o seu futuro? Que "democracia" é esta que se alimenta do desespero de uns quantos, deformando-lhes os rostos, os nomes e as angústias com os números, as estatísticas, a demagogia?
Alguém falou, um dia, na situação limite que é perder a fé. Ah, como tentam anular-nos, transformar-nos numa massa informe e sem voz! Mas hoje, quando a raiva me fez votar, ultrapassei outro tipo de indignação, a que senti crescer por ver como acenam com a bandeira da Democracia para justificar actos ditatoriais e injustos, aproveitando até a participação nos actos eleitorais daqueles que não os apoiam. Sei que aqueles em que voto não vencem (mas eu até temo que o poder faça perder a verdade dos ideais e dos princípios), mas, ao menos, lutamos por não perder a voz e a capacidade de indignação, a vontade de gritar: Não!Não há lutas fáceis,essa é uma verdade incontornável.Então,que a memória destes jovens contribua para não perdermos a lucidez, a capacidade de sentir e de lutar!
Pela Dignidade Humana!

Mar Arável disse...

Um abraço

também para o Luiz Maçarico

YellowMcGregor disse...

Por vezes (muitas vezes) personificamos os três macacos. Mas, ao invés dos 3 Macacos Sábios da cultura oriental ("não ouça o mal, não fale o mal e não veja o mal") preferimos os 3 macacos "burros" e egoístas da cultura ocidental (não vi nada, não ouvi nada, não disse nada, portanto não me comprometa...).
Por isso, é sempre bom que, por vezes, surja na nossa vida um "grito falante" para agitar as nossas consciências e dessa forma deixarmos de ser uns "... apáticos répteis submissos!".
Um Bem Haja para ti.
Com um ramo de :-)